Dezembro é o mês em que Cesária Évora nos deixou.
Também o mês em que Celina Pereira partiu e, mais tarde, Dulce Matias. Foi o mês em que a eternidade nos roubou divas. Ficou a música que deixaram, pois essa também pertence à eternidade.
Sempre tive alguma dificuldade em definir a palavra "Diva". Do seu significado original, derivado da palavra "deusa", surge a figura feminina quase intocável pelo próprio estatuto de o ser.
Na música, creio que o mais próximo e talvez o mais correto — até tecnicamente — seja a voz feminina principal da ópera: a famosa figura da prima donna. Esta carrega também a ideia de alguém exigente, por vezes distante, menos acessível ou "palpável" aos seguidores comuns.
No jazz, as divas surgem noutro cenário: sofredoras, muitas vezes exploradas por maridos ou agentes, marcadas pela dor e, em alguns casos, pela adição. Ainda assim, divas pela sua dimensão vocal e pela presença em palco. Para mim, algumas delas verdadeiras heroínas.
Em Cabo Verde, creio que na música atribuímos rapidamente a palavra "Diva" a vozes femininas que, muitas vezes, nem meia dúzia de anos de carreira têm. Na verdade, palavras como "único", "genial" ou "singular" são usadas com demasiada facilidade. Pior ainda quando se reforça o elogio com o adjetivo "mundial", quase esquecendo que, sem pôr em causa a dimensão internacional da nossa música, é preciso cautela ao falar de músicos — sobretudo nos elogios pós-morte. Nesses discursos de "quem sabe", o valor do artista é por vezes multiplicado por um infinito criado apenas na cabeça de quem o diz, escorregando para um irrealismo emocional. E a música também é factual.
Continuando: para mim, ainda hoje é difícil definir a palavra "Diva". Por isso, com o devido cuidado e respeito pelo seu significado, defino-a à minha maneira:
Figura feminina de voz rara — afinação segura e timbre próprio — em cujo canto se vê o interior da alma. O que canta e como canta não pressupõe agradar a ninguém sem passar primeiro pelo seu próprio aval. Canta para si mesma e, assim, de forma natural, encanta quem a ouve.
A isso junta-se a inevitável imagem de palco, que vai da postura ao carisma. Mesmo quando algo é ensaiado, nunca respeita totalmente regras impostas por diretores artísticos ou gestores de imagem. Uma Diva, quando está em palco, está no seu mundo real, e o que acontece ali sobrepõe-se a tudo o que lhe foi ensinado ou pedido. Se houver cedência, será apenas aos pedidos do público.
Quando a tudo isso se juntam humildade e partilha — condição sine qua non para o verdadeiro significado da música — e uma aversão às lantejoulas vazias (diferentes das que realmente brilham), então estamos perto do que é "ser Diva".
Aterro, então, nas ilhas. Tenho, obviamente, as minhas divas internacionais, sobretudo nas músicas do mundo e no jazz. Mas nas nossas ilhas também há nomes que se aproximam desta definição de Diva — que, repito, para mim não é rígida, mas sentida. Ser Diva é transmitir esse sentimento.
Em Cabo Verde, para mim, há um nome. Não sei se será o único, mas poucos mais haverá: Cesária Évora.
Cesária Évora é Diva no ser, no sentir e no que faz sentir. É voz de timbre próprio. É dona de um palco onde, pela simplicidade, tudo se transforma em lantejoulas que brilham.
É humildade e partilha, mantidas ao longo de toda a sua carreira, desde os bares até aos palcos mais famosos do mundo. Vi-a em vários palcos nacionais e internacionais, onde nunca se repetiu, mas foi sempre igual — um "igual" que fez dela simplesmente: Cesária Évora.
Os chamados "senhores que sabem", que catalogam artistas apenas depois da morte e nunca durante a vida, tentam repetidamente encontrar, de forma forçada, a "nova Cesária Évora". Mas Cesária foi — e continua a ser — única. Única pela qualidade, pelo carisma e pela voz, envolvidos em humildade e partilha.
Assim, neste mês de dezembro, e no dia 17, data que nos ceifou três vozes femininas, recordamos que Cesária partiu em 2011. Mas o ser "Diva" também é eternidade. E essa ficará para sempre na nossa música.





