Sara Alhinho: A Liberdade que Nasceu em Dois Singles
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Sara Alhinho: A Liberdade que Nasceu em Dois Singles

Sara Alhinho abriu uma gaveta que ninguém sabia que existia — e de lá saíram dois singles que são curtas-metragens, universos e uma artista completamente nova.

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Paulo Lobo Linhares

4 min leitura

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Sara Alhinho, a menina-mulher de quem se espera sempre surpresas, ofereceu-nos embrulhado em papel crepom duas músicas, que são videoclipes e que são curtas-metragens pequeninas e cheias de pormenores criativos.

Musicalmente Sara mostrou-nos um lugar que talvez estivesse numa gavetinha forrada com papel com cheiro a flores e que ainda não tinha proposto durante a sua carreira, ...apesar de já ter deixado esquissos...

O burlesco é um estilo artístico, também performativo marcado, pela paródia e pelo humor exagerado. Evoluiu das obras literárias satíricas do século XVI para os espetáculos de variedades das salas de dança dos séculos XIX e XX, onde se afirmou através dos figurinos "exuberantes". Na sua expressão contemporânea — o neo-burlesco — tornou-se também um espaço de glamour e afirmação artística. Neste texto falamos neste Neo-burlesco e tocando apenas a parte artístico-musical e permitam-me a festividade pura e muita dança-sentida – o que na verdade define a nova era do burlesco. Apetecia-me, mas… não uso aqui a palavra "vintage" pois está de tal maneira desgastada e muitas vezes usada sem sentido, que hoje aparece em tudo…no mesmo balaio do que palavras como "resiliência" "empoderamento", "coaching" etc…

Mas voltemos à nossa Sarita.

Enquanto linguagem, o burlesco nasce da brincadeira, do grotesco assumido, transformando o sério em jogo cénico. Na performance, sobretudo nas salas de teatro, cruza dança, humor, erotismo subtil, com figuras icónicas a marcarem o imaginário moderno. É nesse território simbólico que surge um espaço onde cantoras se inspiram numa nova postura das divas de outros tempos. Toca-se em salas onde se adivinhavam os clássicos "piano e voz" e lenços esvoaçantes, com a marca de "lady of the wing", mas também em relva que dialoga com fatias de melancia, pétalas dispersas e muitas sementes coloridas — pequenos detalhes que encantam. Vestidos às bolinhas, bancos de jardim azul-mar que sussurram um abat-jour (ou algo que nos induz a isso), tons de rosa e, ao fundo da mesa de biscoitos, uma discreta garrafa de grogue — porque, sem ele, "Manche" seria difícil. Junta-se a tudo isto uma cenografia (des)cuidada, o som de um rádio pousado na mesa e, como embrulho final, o sorriso sempre presente de Sara Sarita — nunca excessivo, nunca gratuito.

Confesso: gosto de vídeos onde se sentem os sabores, os cheiros, o vento. Onde a música ganha corpo e porquês. Algo que tanta falta faz em muitos dos vídeos produzidos pelas ilhas nossas, frequentemente presos a um "guião-standard" que serviria indistintamente à música de João, Manuel ou Joaquim.

Mesmo percebendo que este vídeo terá sido feito com muito mais criatividade do que cifrões, ele destaca-se claramente da produção nacional. Tal como já acontecera em "Lady of the wind" — em "Manche" a imaginação vence o orçamento. O movimento do lenço, de cor indefinida mas marcante, confunde-se com o sorriso de Sarita, que quase se solta… ou se vai soltando. Os "scats" surgem quando necessários, o cenário serve a música: nada sobra, nada falta.

Sara Alhinho tem esse dom raro: usar apenas o essencial sem perder aquilo que quer comunicar. Aqui, bem ancorada pelo piano de Aupperle, constrói um universo coerente — e a coerência, convém sublinhar, é algo raro na nossa música.

Ela não abandona abruptamente o registo intimista de voz e piano, onde se respiram influências das divas do neo-jazz do final dos anos 90 no primeiro vídeo…mas bebe ainda nas herdeiras do neo-swing que por sua vez beberam nos clássicos de décadas anteriores. Nos 2 vídeos, Sara expande esse espaço. A sala imaginária abre-se para um jardim, entram amigos, bons-dias ao amanhecer e uma alegria contida, mas luminosa, no belíssimo resgate de "Manche".

É a mesma festa sem exagero — intensa e leve ao mesmo tempo. O mesmo desenho ambiental do primeiro disco, agora com pinceladas claras do neo-swing made in the 90's, evocando (ao de leve e sem comparações diretas) Cherry Poppin' Daddies, Brian Setzer Orchestra, ou os fantásticos Big Bad Voodoo Daddy.

A capacidade de Sara ligar o que sente — pintado no sorriso — ao momento musical é notável. Não há sorrisos atrasados nem adiantados; por isso são naturais. E encantam enquanto canta.

Sara mistura tudo isso e traz para Cabo Verde uma sonoridade que rapidamente se percebe colar-se à nossa coladeira. Foi sim — clara inovação…Acredito que aí resida grande parte da sua magia. Fez-me lembrar outra incursão genial pelas sonoridades dos anos 60 e 70, quando Khyra entrou no universo de Frank Cavaquinho num soul de mestria absoluta, num impressionante Frank Brock (injustamente esquecido).

Sara foi original. Saiu do mesmismo que tantas vezes domina a produção nacional e que, não raras vezes, é confundido com inovação. Há muito que não o via — salvo honrosas exceções. Sara não teve medo de mexer.

Falo, por agora, dos dois primeiros singles. Mas quando singles são bem pensados e obedecem a um conceito — como tudo indica ser o caso do Sara Alhinho Quartet — tornam-se prenúncio de boas colheitas, águas férteis e verdadeira diferença para a nossa música.

Sara explodiu em liberdade. Há, definitivamente, uma nova Sara Alhinho que nasceu — coincidência ou não….falar aqui em nascimento…

Fico, por isso, à espera do álbum e dos espetáculos, com curiosidade e entusiasmo.

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