Compositora, voz e intrumentista de um hoje a saber a amanhã
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Compositora, voz e intrumentista de um hoje a saber a amanhã

Claudia Sofia transforma silêncio e imaginação em canção — voz e violão fundidos num só corpo, entre as sonoridades de Santiago e o embalo da bossa nova. Talvez a única da sua geração capaz de sustentar um concerto inteiro neste formato. Quando a última nota desaparece, fica o nome.

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Paulo Lobo Linhares

3 min leitura

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Compõe. Conta estórias e histórias que ora nascem do que observa em silêncio, ora do que vive em mundos imaginários. E tudo isso se transforma em temas que se escutam com um sorriso.

Sorriso... sim, sorri quando canta. Na verdade, mistura o sorriso com um leve semicerrar dos olhos que, conforme a música, acrescenta deleite ou alegria a quem ouve. Canta também com os olhos.

A sua voz é experiência — daquelas que não se explicam, apenas se sentem. Versátil, percorre músicas com o embalo de brisas suaves, atravessa a força das sonoridades de Santiago e mergulha em improvisos num palco que parece ser só seu. No fim há sempre espaço para aquela batida sincopada da bossa que, para além dos clássicos do género, marca presença forte nas suas próprias composições.

Em cada estilo, encontra uma tonalidade; em cada necessidade, sobe ou desce o tom conforme o tema pede. E em cada tom, acrescenta variações que a levam — e nos levam — a momentos únicos.

Nos espetáculos, mistura canções autorais com temas de Cabo Verde, sobretudo de Mindelo e Santiago. Passeia ainda pelos standards do jazz vocal, pela canção francesa e, com especial destaque, pela bossa nova.

Quis um violão próprio. Escolheu um modelo do artista Aniceto Baptista — redondo na parte superior e com uma curva na base — que parece ter sido desenhado para encaixar no seu regaço. Em palco, há uma fusão quase perfeita: artista e instrumento tornam-se um só.

Quanto aos palcos, é feita para todos. Já a vi numa receção para 500 pessoas, na inauguração de uma semana temática de uma instituição internacional para a qual compôs um hino em defesa do ambiente, ou em bares icónicos do Plateau. Em todos, o repertório certo, na medida certa.

Trago o violão de novo... arriscando-me a dizer: é das vozes mais intensas em formato voz e violão da nossa música, desde Khyra Tavares. Digo intensidade para não dizer presença — porque é disso que se trata.

Há dias, conversava com um colega músico que defendia que a maior presença de vozes femininas em palco pode estar ligada à escassez deste formato na nossa música. Aqui, há essa resposta. E talvez seja, neste momento e na nossa cena musical, a única da nova geração com a capacidade de sustentar um concerto inteiro neste formato. Sabe tocar, sabe usar o violão — e sabe estar.

Esta semana, antes de partir para a sua segunda digressão europeia, esteve na cidade da Praia. Passou por pontos icónicos da nossa rota musical e terminou com um momento delicioso no Espaço Batuku, na Cidade Velha, onde certamente conquistou ainda mais ouvintes. Lançou o seu primeiro trabalho "Mas um Melodia" e prepara o segundo para este ano.

Para terminar, dois pontos que se entrelaçam e fazem desta cantora, compositora e instrumentista um caso raro, com um futuro seguro: profissionalismo absoluto e natural, e uma humildade do tamanho da própria palavra.

E quando a última nota desaparece, é o nome que permanece: Claudia Sofia.

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