Muito provavelmente, hei de lá estar na próxima edição, que creio já ser a 13.ª. Mas, entretanto, segui pelas imagens e pela maneira emotiva como o meu caro Benvindo Neves Chantre foi partilhando o “Festival Nacional de Violino,” em Ponta do Sol.
Mais do que acompanhar pelas imagens um festival a que não pude assistir, o que estas publicações me fizeram voltar a pensar foi na importância urgente de criar espaços onde a nossa música tradicional continue a ser presente, vivida e conservada, e não apenas uma memória que guardamos do passado.
Começar por elogiar o cenário que Benvindo Chantre Neves construiu através dos seus valiosos posts seria inevitável. Seguindo as publicações, quase se teve uma noção do festival – enfim, coisas de quem ama e partilha a música de forma apaixonada, como o nosso Benvindo.
Um festival onde o palco recebe e espalha, em esplendor, a nossa música já é uma preciosidade nos tempos de hoje.
Fazê-lo à volta de um instrumento ao qual a nossa música já levou mundo fora e de que por cá tão pouco se fala é ainda mais significativo. E quando esse palco recupera também um tema de Travadinha, escolhido para uma banda sonora, percebemos que há muito mais nesse violino do que aquilo que, por vezes, somos capazes de reconhecer.
Agradou-me ver, nas imagens, o violino que fez baile, o jovem que se destacou, o clássico violinista que o tempo e algumas ideologias que ditam prioridades na cultura não reconheceram, e as várias origens dos músicos – das ilhas à emigração.
Agradou-me ver um palco abraçado por um Festival dedicado à música tradicional de Cabo Verde…talvez não por acaso, ontem, um artigo que li trouxe até mim uma frase que me pareceu pertinente citar em relação à música folclórica – que, apesar de ser uma das vertentes da música tradicional, é talvez a fatia maior do bolo – e que se aplica perfeitamente aqui:
“O folclore é geralmente respeitado enquanto património e memória, mas tem mais dificuldade em ser reconhecido como parte ativa do presente.”
É precisamente aí que vejo a importância de festivais destes.
Para nos conhecermos, precisamos que continuem. Precisamos que os mais novos vejam, aprendam e descubram quem são também através da música – e, sobretudo, que façam parte dos palcos.
Vejo uma geração com vários exemplos de jovens de destaque que só conseguiram chegar onde chegaram porque tiveram pelo caminho alguns professores e incentivadores que lhes despertaram a curiosidade e lhes deram espaço para crescer.
Benvindo Neves Chantre é claramente um dos que melhor desempenha esse papel de promoção, valorização e partilha da nossa música.
Obrigado, Benvindo, por trazeres até mim – e a tantos outros – aquilo que muitas vezes não temos oportunidade de ver.
Que os palcos da música tradicional se multipliquem. Que a nossa música continue a ser tocada, experimentada, aprendida e levada para o futuro.
Só assim a geração que agora chega poderá conhecer a sua identidade, num tempo em que, creio, já perdemos demasiados anos em puro atraso ou desvio do foco.
Palmas para a organização e promotores do festival que certamente poderá ser maior.

FESTIVAL NACIONAL DO VIOLINO, Música e identidade
Benvindo Neves Chantre transforma a tradição em presença – violino e festival fundidos numa única visão, entre a herança de Santiago e o pulso da identidade cabo-verdiana. Talvez o único da sua geração capaz de carregar um movimento inteiro neste formato. Quando a última nota se desvanece, o legado persiste.
P
Paulo Lobo Linhares
3 min leitura
bookmark
Partilhar

