Ainda pequenina, Gabriela escolheu as aulas de guitarra na Escola Pentagrama, numa pequena sala acolhedora, onde as paredes guardam muita música.
Foi nessa sala que Gabriela foi crescendo, aprendendo e enchendo-se de música. Ao seu lado esteve sempre atento o professor To Tavares, que há 30 anos ensina música a inúmeras crianças. Mas To ensinava, sobretudo, a gostar. A descobrir a beleza da arte-mãe.
Alguns escolheram fazer da música uma profissão. Foi o caso de Gabriela.
Hoje, segue os seus estudos num país longínquo. Leva consigo tudo o que aprendeu e sonha regressar com conhecimento nas malas, para contribuir para a música das ilhas.
Na conversa com Gabriela, percebemos melhor esse caminho.
Quando é que a música deixou de ser apenas uma paixão e passou a ser uma escolha de vida?
Quando eu estava quase a completar o ensino secundário eu percebi que eu queria levar a música como profissão e não apenas um hobby. Acho que não teve um momento específico em que eu decidi, apenas fazia sentido que era isso que eu devia fazer e era isso que me fazia sentir bem.
Escolher a música como profissão também implica aceitar alguma insegurança. Tiveste medo de tomar essa decisão?
O meu único medo era como os meus pais iriam reagir porque a opinião deles conta muito para mim, mas esse medo desapareceu rapidamente pois eu vi que teria o apoio e suporte deles sempre. O professor Tó sempre me mostrou que não é preciso ter medo e que com trabalho e dedicação tudo é possível.
Saíste de Cabo Verde para estudar música na Hungria. O que procuravas quando partiste?
Procurava uma oportunidade para estudar música como ensino superior pois aqui em Cabo Verde não temos um curso assim, e lá eu encontrei exatamente o que eu estava à procura na época.
Como se chama e em que consiste o teu curso?
O meu curso se chama Music Culture e é basicamente, como o nome diz, a cultura da música. Estudamos a música em geral (história, teoria, solfejo, folk music, etc.) e também no último ano do meu curso temos uma especialização em Computer Music and Production.
E o que a distância te ensinou sobre Cabo Verde e a sua música que talvez não conseguisses perceber se tivesses ficado?
Estando na Hungria e a aprender um pouco da cultura deles eu também percebi que a nossa música é muito rica.
No teu curso, poderás vir a trabalhar o passar da nossa música para pauta. Quando colocas uma música tradicional na pauta, estás a preservar uma memória ou estás também, de alguma maneira, a transformar essa música?
Só com o curso que eu estou no momento ainda não dá para fazer isso, por isso é que depois deste quero fazer um mestrado. Eu acho que ao colocar na pauta estamos a preservar a música e também a dar mais chances a outras pessoas de outros lugares conseguirem também interpretar e apreciar.
Há coisas numa tradição oral que a escrita musical nunca conseguirá captar?
Acho que sim, porque por exemplo, por mais que digamos que temos uma morna escrita perfeitamente na pauta, mesmo assim só um cabo-verdiano consegue a interpretar de forma mais profunda e fiel e colocar a sua alma naquilo.
Estudaste em escolas, mas também aprendeste com músicos e mestres. O que é que a escola consegue ensinar e o que só se aprende estando ao lado de alguém que toca?
A escola ensina a parte académica e técnica que ajuda a aperfeiçoar e melhorar a nossa forma de tocar, enquanto que a parte mais tradicional ensina a interpretar a música de uma forma mais profunda e tradicional.
O professor Totavares ocupa um lugar importante no teu percurso. O que ficou dele em ti, musicalmente, mas também na maneira de entender a música?
O professor Tó é uma grande inspiração e motivação para mim. Ele é um grande exemplo de disciplina, determinação e foco, que são fatores muito importantes na música.
O que achas que a tua geração pode aprender com gerações mais velhas? E o que pode a tua geração acrescentar a essa tradição?
Acho que a minha geração pode aprender principalmente no que toca à experiência, à disciplina e ao respeito pela música e pela tradição. Eles têm conhecimentos que não se aprendem apenas numa sala de aula. Ao mesmo tempo, acho que a minha geração pode acrescentar novas ideias e novas formas de interpretar e divulgar a música.
Fala-se muitas vezes da necessidade de preservar a música tradicional. Mas preservar significa mantê-la exatamente como foi recebida? Ou uma tradição só permanece viva se também puder mudar?
Acho que preservar a música tradicional não significa necessariamente mantê-la exatamente como foi recebida. A tradição continua viva quando é transmitida às novas gerações, e cada geração acaba por interpretá-la da sua maneira e acrescentar algo.
Estás fora, mas este trabalho parece ter Cabo Verde como destino. Quando regressares, o que gostarias de trazer contigo?
Transcrever as músicas para a pauta é algo que quero muito fazer, mas para isso requer uma especialização e estou em busca da mesma.
Que papel gostarias de desempenhar na música cabo-verdiana?
Como ainda estou a começar ainda não tenho a certeza, mas gostaria também de focar na composição futuramente.
Que Cabo Verde musical gostarias de ajudar a construir, sobretudo para aqueles que vêm depois de ti?
Ainda não sei bem, mas quero que estudar música não seja visto como "perda de tempo" ou como algo de outro mundo e também quero que estudar música seja mais acessível para todos.
Se hoje tivesses de escolher entre uma vida mais segura, mas longe da música, e uma vida mais difícil, mas a fazer aquilo que amas, escolherias novamente a música?
Sim, escolheria sempre este caminho novamente porque é o que me faz sentir feliz e também é o que eu sei fazer melhor.
Depois de tudo o que viveste até aqui, o que é que a música te ensinou sobre ti própria?
Que eu sou muito mais dedicada do que eu pensava e que quando eu tenho interesse em algo eu consigo focar e atingir os meus objetivos.
O que é que a música sabe sobre ti que mais ninguém sabe?
Acho que a música conhece uma parte de mim que eu não mostro facilmente às pessoas, pois sinto que tenho muitas dificuldades em mostrar os meus sentimentos e até em demonstrar emoções. Mas acho que consigo transmitir tudo o que sinto quando toco.
A música está contigo todos os dias?
Sim.
Que mensagem deixas para os jovens que querem seguir o caminho da música?
Com muita dedicação e treino tudo é possível.
Duas músicas e dois compositores ou músicos da banda sonora da tua vida?
The Neighbourhood e Mayra Andrade. Esses são dois artistas que eu escuto muito.
Gabriela está longe, mas sabe para onde vai. A música a ensinou a estar dedicada, a focar, a acreditar que tudo é possível com treino e determinação.
O resto constrói-se no caminho.
- Foto de Helder Paz Monteiro


