Yancine Rosa: música e palco vestidos de Cabo Verde.
Artigoschevron_rightSons & Ritmos
Sons & Ritmos

Yancine Rosa: música e palco vestidos de Cabo Verde.

Yancine Rosa: uma presença rara, onde simplicidade e intensidade dão corpo a uma música profundamente cabo-verdiana e pronta para o mundo.

P

Paulo Lobo Linhares

3 min leitura

bookmark

Há dias, em conversa com um amigo angolano — bom conversador e gingão — dizia-me ele que, quando se levanta uma pedra, sai um músico cabo-verdiano e um bailarino angolano. Achei piada.

Há verdade nessa afirmação: é realmente notável a capacidade inata que o cabo-verdiano tem para a música.
Se depois essa capacidade se desenvolve em formato de formação ou autoformação, é outro tema — talvez para uma nova crónica. Mas sim, o dom musical do cabo-verdiano é enorme.

Desde que me lembro de mim, sempre fui viciado em procurar músicos e grupos — primeiro nas famosas compilações da década de 80 e, mais tarde, por questões profissionais. Quando trabalhei fora, fiz disso profissão nas lojas de musica pelas quias passei: descobrir, apostar, divulgar.
Ao regressar a Cabo Verde, depois de anos fora, impressionou-me a quantidade de qualidade que muitas vezes não era enaltecida. Fomos construindo os nossos palcos maiores e os nossos músicos de exportação, mas nem sempre eram os melhores que nos representavam lá fora.Quase que de forma (viciadamente) manca.

Há dias, soube da participação de uma voz — provavelmente uma das mais completas que vi nos últimos anos na nossa música — num festival de relevo em Itália - O mercado musical Napoli World / Musiconnect Italy Mais me agradou saber que contou com o apoio da nossas entidades.
Falo de Yacine Rosa
Confesso que não a conhecia. Um dia, num palco secundário, vi Yacine atuar. Tudo era simples — Yacine também. Mas a simplicidade daquela mulher em palco ofuscou-me por completo: foi paixão musical à primeira nota.
Cantava uma coladeira… depois vieram as mornas. A simplicidade de Yacine era tão grande e tão natural, num todo em que tudo fazia sentido. Essa grandeza, traduzida em gestos contidos e expressivos, mostrava que ela era claramente talhada para palcos maiores — em tamanho físico e em conceito.
Desde então, sempre que podia, chamava Yacine para os eventos em que estava envolvido. Foram vários — e Yacine, sempre a mesma: música vestida de Cabo Verde.

No vestido, as nove ilhas; e a décima — o Fogo — vinha sempre na flor que traz no cabelo quando pisa os palcos por que se apaixona (o que creio serem quase todos).
O Fogo, ilha de ritmos preciosos, por vezes esquecidos no panorama musical. Lembro-me do dia em que a vi interpretar uma “Bandera”. Nesse momento percebi: tudo em Yacine é música em ebulição. …

A sua voz atinge intensidades enormes em segundos, coladas ao que a letra pede. Yacine não canta apenas — interpreta. Mistura música e teatro num poder cénico que arrebata.
A criatividade em Yacine, é suficiente para que o simples se torne muito. Sobre temas clássicos, não deixa de meter pinceladas da sua própria criatividade , a nada se torna por acaso.
Insisto na palavra simplicidade. Há fervura e intensidade, mas tudo em doses certas, sem exageros. E há o olhar — o seu grande aliado em palco. Um olhar natural e discreto, que prende o público docemente, como velas de um barco que dançam ao ritmo que ela dita.
Se as velas do barco tremulam ao sabor do vento, o leve bailar de Yacine acompanha-as. Os movimentos são os necessários — discretos, mas com força suficiente para preencher o espaço.

Yacine é imagem, presença — a definição viva do que significa ser o que os cursos nos ensinam (teoricamente) sobre o significado da palavra "frontwoman”.
Tem o Fogo na flor do cabelo, as ilhas no vestido e, no olhar, a simples intensidade musical que inevitavelmente a transformará em mundo.
O mundo já tem Yacine. Falta apenas a sua confirmação.
Há meses brilhou num festival internacional no continente africano em Moçambique; não tenho dúvidas de que agora o fará nos grandes palcos da world music com o começo neste “Italian World Beat”
Pois é, Yacine… provavelmente voltaremos a encontrar-nos pelas ilhas, num dos palcos como aquele onde te vi pela primeira vez — porque o palco é teu.

E comigo fica uma certeza: todos os palcos serão grandes quando forem teus. Intensamente teus.

No vestido, o mar e ilhas
Na flor, o mundo e ilha

Partilhar