Quando comecei a trabalhar com música — primeiro na Virgin e depois na Fnac — a minha paixão sempre foi descobrir sons e artistas novos. Com o tempo tornei-me comprador: parte da equipa que escolhia e apostava em discos, acreditando no seu potencial de sucesso. O que sempre sonhei, profissionalmente. Sempre ouvi música como se estivesse em duas salas do mesmo espaço: numa, os clássicos — os meus heróis de sempre — e noutra, a procura constante por algo novo. E quando encontrava, a recompensa era enorme. É assim que sigo na música até hoje: ouvindo os pilares e procurando os que se tornarão próximos.
No nosso país, os jovens têm talento, vontade e paixão — o que muitas vezes lhes falta é palco. Duas frases que ouço com frequência e que considero ridículas são: "falta-lhe experiência para este palco" e "poderá fazer parte do festival jovem". É preciso nunca esquecer que muitos dos nossos jovens são órfãos de ensinamento musical — seja académico, seja o que vem de casa. Tal como a geração anterior foi órfã das lojas de música — não as tivemos para aprender a escolher e a descobrir discos. Haveria muito para dizer, mas deixo isso para outra crónica.
Sobre a primeira frase, especialmente quando dita por promotores cujo pensamento é exclusivamente comercial, só me pergunto: afinal, que superioridade tem esse palco para afirmar que um artista "não tem experiência para ele"? Serão os nossos palcos assim "tão experientes"? Quanto à segunda, já vi músicos muito jovens encherem salas de emoções verdadeiras — emoções que vêm do coração, não da idade.
Falo disto porque esta semana vi um artista que reúne tudo aquilo que os "avaliadores" considerariam pontos fracos: é muito novo (20 anos), não pode ter muita experiência por causa da idade e poderia, segundo alguns, caber apenas num "palco jovem". Porém, para mim, é exatamente o contrário: a juventude traz-lhe uma energia fresca, uma certa inocência de palco que lhe confere um carisma natural, original e extremamente cativante.
Falo de Eri Gomes.
Com prémios conquistados em concursos como o TMC, nacional e internacional, começa agora a aparecer em palcos na Praia e até no estrangeiro. De mansinho — como ele próprio é — vai pisando esses palcos e conquistando plateias, tal como o fez na última Gala da Fundação Dretu, que tem sido um espaço importante para a promoção de vozes jovens. Tem uma voz diferenciada. Um timbre marcante que, misturado com paixão pura pela música, o torna um verdadeiro trovador contemporâneo. Apaixonado pela música tradicional, a sua grande paixão é a morna. As suas maiores inspirações são Dudu Araújo e Ildo Lobo. Só por esses nomes, já se adivinha o caminho que está a trilhar.
De um corpo franzino nasce uma voz forte, natural. Eri é uma voz de exceção no presente e arrisco dizer que será um futuro certo da nossa música. Quando canta, sorri nas palavras que devem sorrir e embala noutras com sentimento puro. Ama o palco, a música e sobretudo a partilha — aquela que não é vaidosa, mas generosa. Nos espetáculos em que o vi e com ele trabalhei, destaco também o respeito e a atenção com que escuta os mais experientes, sejam músicos ou colegas de produção. Atende rapidamente aos pedidos do público, mostrando que para ele o palco não é lugar de exaltação, mas sim de continuidade entre artista e plateia.
Por tudo isto, só me resta acreditar que mais uma pedra preciosa nasce na nossa música. Que o percurso de Eri continue envolto em amizade e na humildade que o caracteriza. E vou mais longe: que Eri Manuel seja um marco no caminho da música caboverdiana. Que as nossas escolhas de artistas se baseiem no valor musical — porque o valor verdadeiro, mais cedo ou mais tarde, também traz retorno financeiro. Os jovens estão preparados para os palcos. Esta geração é válida e talentosa. O que precisam é, simplesmente, PALCOS. E Eri Manuel, tenho a certeza, será presença rápida em cartazes nacionais e internacionais.





