Alicia Freitas: Compositora em Doce Música a anunciar Causas Preci(o)sas
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Alicia Freitas: Compositora em Doce Música a anunciar Causas Preci(o)sas

Alicia Freitas: pureza, emoção e maturidade rara, onde técnica e silêncio se unem numa expressão musical profundamente autêntica e já maior que o palco.

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Paulo Lobo Linhares

7 min leitura

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…O final de tarde do dia 6 de novembro (2025) apresentava-se mais fresco. A brisa corria e, por entre os ramos da árvore, que apaixonou-se pelos ramos do pé de maracujá que fica em frente à porta de entrada do Auditório do Centro Cultural Português Praia. Juntos e ao ritmo da brisa, pareciam assobiar com leveza — quase que a anunciar o que o amigo Auditório nos trazia.

Havia lá dentro um Palco que nessa tarde conversava com as Árvores. Nele, a equipa de produção, o professor e os técnicos de som e luz também conversavam com outras plantas e arbustos que faziam o cenário do palco, dando-lhes os recados enviados pelo pé de maracujá.

O palco recebeu e correspondeu. Deu a estrela maior – Alicia Freitas Piano. Na abertura a pequena pianista da Pentagrama - Escola De Musica deu as boas-vindas ao público, recebendo-o e, ainda em sonoridade que misturava o bailar do pé de maracujá e as primeiras notas do espetáculo. Fez os primeiros minutos da sala. Já com o público sentado, dois "pikinotis" pianistas encantaram-nos com a sua atuação… e com as vénias rigorosamente feitas – não fosse o momento de tamanha importância.

Trio de Cordas e a Magia das "Notas de Infância, acordes e Palcos de Amanhã". Seguiu-se um maravilhoso trio de cordas da escola. Neste momento o professor Tottavares Fortes também se fez aluno e, juntamente com o violinista que será futuro certamente, e com a formadora Edivânia Moreno, vinda de Lisboa e que "refinou" a atuação de Hugo – começava a magia do momento: Notas de Infância, Acordes e Palcos de Amanhã.

Os três interpretaram um tema da autoria de Tó Tavares e a rearmonização da mágica "Força di Cretcheu" do nosso Eugénio Tavares. Tudo foi magia, e… Edivânia deixou promessa de volta. Após a atuação do Trio, Edivânia juntou-se a Alicia para um dueto de piano e violino, que anunciou então o momento "Alicia" — um tipo de Alicia no País das Maravilhas.

O Encanto Silencioso de Alicia. Numa falsa timidez – que mais se encostava à humildade de quem começa a "aprender" o palco – Alicia, logo no primeiro tema, mergulhou no seu estado de introspeção musical, onde a música que deixa soltar é claramente espelho d'alma. Docemente, começa a caminhada em viagem e, dedo ante dedo, parecia brincar (mas a sério) com cada tecla do piano. Cada nota sabia ao que vinha, pois Alicia passava-lhe alma – a cada uma – para que o todo fosse encanto para a plateia. E foi. Entregou-se por completo, fez da música ponto certo – sem exagerar nem fazer nada a mais – e, sobretudo de forma magistral, fez o que muitos músicos não fazem: trabalhou o silêncio, fazendo lembrar o que o compositor John Cage deixou como ensinamento à música. Alicia trabalhou a música no seu estado mais puro – o da emoção. Gestos pequeninos, olhares que se fixavam nas teclas e que por vezes, timidamente, escapavam para o público para o cumprimentar; a sua postura corporal e os delicados movimentos misturavam-se à sua capacidade técnica e de compositora. (Alicia tocou nove temas dela.) Fez com que alguns elementos da plateia oferecessem lágrimas de emoção a recompensar a menina do piano. Provavelmente, um dos concertos com mais alma e genuinidade que assisti nos últimos anos.

A Jovem Compositora que se apaixonou pela Música. Conforme acima dito, Alicia – para além de instrumentista, violinista e, sobretudo, pianista – é compositora. Tem 16 anos – e já lhe chegam para, sim, ser chamada de compositora. O repertório do dia 6 foi criado em pouco mais de um ano e 10 de sonho com as notas – desde que, aos cinco anos, recebeu o seu primeiro piano do pai. Hoje tem outro, que carinhosamente chama "Stela". Para além de um espetáculo-momento, Notas de Infância, Acordes e Palcos de Amanhã a intensidade natural – sem ter sido criada para tal – fez com que o estivesse carregado de mensagens subliminares.

Quantas Alicias Ainda Esperam Oportunidade? Assim como Alicia – mesmo sabendo que ela é um caso raro e de acentuada genialidade – quantas mais estarão à espera de hipóteses ou oportunidades para subirem aos palcos? Muitas, com certeza. Alicia teve a bênção dos deuses da música que a levaram a apaixonar-se pela arte, a persistência de continuar, o apoio dos pais e amigos da Escola Pentagrama que a apoiaram… ou melhor, que apoiaram o seu talento. Agora que já está assumido, sei que muitos virão atrás do que já é fácil e está feito. Contudo, houve quem acreditasse logo à primeira. Daí fica a pergunta: quantas Alicias ainda estão à espera de crédito – logo à primeira? Creio que este exemplo poderá ter sido precioso.

O Resultado do Trabalho de um Formador em Resistência. O resultado da persistência do formador Tó Tavares e da Escola Pentagrama tem de ser elevado. Tavares já formou muitos alunos – poderia citar vários casos internacionais, mas fico-me pelo primeiro concerto deste projeto, onde mais uma estrela brilhou: Gabriela Rodrigues, que hoje estuda música na Hungria. Tavares contou sempre com a ajuda de profissionais e, acima de tudo, dos pais das crianças que, juntos, formaram um tipo de ministério que sustentou e motivou a preciosa Escola Pentagrama. Num tempo em que os elogios ao médio são tão fáceis e as vulgaridades se tornam heróis, faltam depois medalhas para escolas como a Pentagrama – que aqui representa muitas outras – e para Alicias e Gabrielas, que representam músicos que realmente fazem a diferença. A diferença real – não a forçada por autocolantes que descolorem com o tempo.

Escola, Produtora e Privado: Uma Aliança de Sucesso. Outra mensagem deixada pelo Notas de Infância, Acordes e Palcos de Amanhã foi a ligação entre as escolas, a produção e o setor privado. Todos os envolvidos neste espetáculo mostraram que o sucesso dos palcos vem da capacidade do músico — ou seja, a energia é do palco para o público, e não da vontade do público para o palco. Creio que este exemplo poderá ter sido precioso.

O Futuro: Formadores e Palcos com Esperança. O professor Tó perguntou, com um misto de preocupação e esperança de resposta, no final do espetáculo: "E agora? O que faço com a Alicia?" Meu caro Tó, a Gabriela conseguiu, assim como o Pedro já o tinha conseguido, assim como o Hugo teve a Edivânia… pois a música nunca te deixará sozinho. Para mais, penso que já não há caminho para retrocesso. Indo mais longe: Alicia mostrou que a aposta em formadores para formar músicos é imperativa. Mais do que conservatórios, são necessários formadores. Conforme disseste, meu caro Tó – para ser professor de Geografia é preciso ser formado em Geografia. Com a música será certamente o mesmo. Outra coisa que retive: sim, precisamos de auditórios – ou de um auditório – para atuações de artistas sem autocolantes, mas com lacre de esperança. Já fizeste a tua parte, e ainda tens – e temos – muito a fazer. Nós, os amantes da música, os pais dos teus alunos e a música de Cabo Verde, só temos de te agradecer.

O Tempo da Nova Geração. Assim, da mesma maneira que o pé de maracujá se enamorou pela árvore e dela fez nascer música, que passou para as folhas que estavam no palco; da mesma maneira que a pianista que abriu o espetáculo ofereceu notas ao público, que os dois pikinotis mostraram que não vinham brincar com as notas, que o trio fez a junção entre professor, formadora e aluno, e que Alicia ofereceu música pura em estado d'alma e partilha… num momento onde a emoção se apoderou do público… foram lançadas propostas com respostas que já não podem ser descuidadas. Houve, sim, um tempo-marca no dia 6.

Tipo de confirmação do tempo da nova geração de músicos de Cabo Verde que se impõe — e que, mesmo apesar do (des)dizer dos "críticos de sofá", mostra no lugar certo – o palco – que estão prontos para receber e partilhar.

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