Tcheka: de uma década, uma música e um todo originalmente intenso. De um sempre que se tornou Mundo
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Tcheka: de uma década, uma música e um todo originalmente intenso. De um sempre que se tornou Mundo

Tcheka: uma voz que a Praia dos anos 90 guardava num canto do Pub TEX — original, intensa e inevitável. Um cantautor que não precisou de se anunciar para se tornar mundo.

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Paulo Lobo Linhares

5 min leitura

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Estávamos na década de 90. Chegava de férias. Afoito à procura de novidades da terra corria os bares à procura dos músicos. Na altura 2 focos palcos principais: o Quintal da Música e o inesquecível Pub TEX. Nesta rota, começaram as noites de música da Praia. E seguia…á procura. Rapidamente, ia encontrando. Lembro-me das quintas-feiras dos mais jovens no 5tal, onde vozes iam timidamente despontando. Vinham timidamente, mas já com enorme querer. No final da noite tornou-se diário o Pub Tex. Mais do que um Pub, era um espaço de encontro, onde se falava e sobretudo se ouvia a música de Cabo Verde, com incidência a de Santiago, que sofria nessa década pura ebulição… ou se quisermos ebuliSon. E, eis que chegava a noite…as noites do Tex. Esta, trazia-nos mais música, muito palco, inúmeras "Jam Sessions" (e que reais eram) e o mais importante: o falar a música, discuti-la e, acabar descontraidamente a ouvir mais discos.

Enquanto isso, das apresentações ao vivo, mostravam-se grupos como, por exemplo, os "Ayan", absolutamente históricos na inovação de uma época da nossa música. Mais tarde, tornar-se-iam a banda suporte do enorme Pantera. Um dia, entro e ao descer as escadas da entrada, o som começa a arrebatar-me, por completo. Entro. Sento-me na mesa do canto esquerdo do Pub, que ficava em frente à cabine de som, recheada de cds e vinis. Era a mais pequenina e por tal com menos gente. Ouvia 2 músicos em palco. Dois violões. Pareciam ter-se encontrado para se complementarem em música e alma. 1 tocava violão, num acompanhamento em formato humildade – como todos os acompanhantes devem fazer e que não acontece hoje pelas nossas bandas. Sim, é preciso saber-se ser acompanhante. O outro, numa mistura de muito querer, enorme energia… muito própria, em originalidade que não enganava. Oferecia-me algo que eu ainda não tinha ouvido na nossa música. Era tímido, mas a música perfurava os poros dessa timidez e ainda de forma mais radiosa nos entranhava. A sua maneira de atacar o violão era única. O suporte do colega do violão, era natural, pois percebia que a sua função seria a de criar almofadas para que tudo fosse o todo. O do violão chamava-se Júlio. Júlio Rodrigues. O cantor…que acabava de conhecer e que se tornou um dos mais preciosos e originais músicos e compositores da nossa música chamava-se Tcheka Andrade. A partir desse dia, para mim, a música de Cabo Verde passou a ter nova referência e novos termos de comparação em termos de evolução e inovação.

Tcheka era de uma criatividade enorme no que diz respeito a letras. Escrevia a realidade que vivia, que vai desde "homis di monda ou di strada Piku" até ao jovem "ki primeru bez ta bai sinema". Do campo à cidade, as temáticas eram cantadas com enorme conhecimento. Sem querer parecer nem aparecer. Apenas o crer. Assim, Tcheka dava vazão à sua criatividade e usava termos e palavras na sua música que vinham diretamente do seu eu-criativo, e que nos escanteavam pois eram cantadas em forma de imagem. As letras de Tcheka foram inovação, em termos de postura musical e imagética, na nossa língua. Mais tarde cantou o Mar de forma sublime – na verdade a própria, a que ele constrói – vindo de pedacinhos de imagens e vivência da terra onde nasceu… à beira Mar. A música de Tcheka – sobretudo o seu violão, era mistura pura de 2 "instrumentos" – cordas e percussão. Nas cordas percutia a sua música e nas mesmas, as melodias se soltavam, qual montanhas verdejantes do nosso interior após chuva. Tcheka inovou a maneira de tocar o nosso violão em termos de Santiago.

…e, passei a nunca perder um palco de Tcheka. Muitas vezes era um "mocho", ou os degraus da porta dos correios – para mim, palcos de excelência. Um dia apresentaram-me e o meu encanto pelo músico foi maior. Humilde e acreditava que a sua música era coisa normal. Não meu caro Tcheka – já na altura não o era. Lembro-me de um dia, ao saber que trabalhava já na Virgin Music, ter falado comigo, dizendo que gostaria de produzir um disco, mas com "música mais séria, metendo talvez um pouco mais de Jazz"… sorri. Tcheka não tinha a ideia do jazz que nele morava – sendo o significado de jazz (também) a palavra liberdade e improviso. Para além de já o ser, qualquer jazz que viesse a mais, e que se juntasse ao inato do cantautor seria desnecessário pois diluía a intensidade do músico. Tcheka era e é jazz em formato cristalizado. A amizade nasceu nesse dia. Com ele uma admiração profunda pelo artista que na minha opinião é e será sempre, um dos maiores compositores, músicos, vozes e criadores da nossa música.

Nomes nacionais como Hernani, o enorme grupo Arkora (ou elementos deste) que o acompanharam, ou internacionais como Lenine, Mário Laginha entre muito mais confirmaram a essência rara e pura de Tcheka. Quando regressei das férias, e à medida que foram saindo os discos de Tcheka – passaram a ser para mim, destaque constante nas lojas por onde trabalhei – Virgin e Fnac – durante décadas. Lembro-me de uma figura muito famosa da crítica musical portuguesa, a quem mostrei um disco de Tcheka e que, no dia seguinte, veio pedir-me a discografia completa do músico.

Pela intensidade de Tcheka, muito fica por dizer. Haverá mais crónicas, haverá certamente mais retornos nestas crónicas a Tcheka, a geração 90 da nossa música, aos filhos de Pantera, aos palcos-Tex… assim como haverá mais palcos em CV e no mundo para Tcheka, pois Tcheka é mundo e das músicas do mundo. De um sempre que se tornou mundo…mesmo de forma inconstante, é sempre um sempre.

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